Paratleta alagoana é destaque na natação e possui bolsa federal em função de sua posição no ranking nacional

Quando estava na 6ª série (atual 7º ano), Erica Ferro participou de uma seleção para um curso de natação. Todos os seus colegas se inscreveram e, mesmo que até então seu único contato com a piscina tivesse sido em sessões de hidroterapia na infância, ela não deixou de se candidatar a uma das vagas. Seu teste foi um desastre, já que não sabia nadar e sequer conseguia se manter na superfície. Não foi aprovada para o curso, mas, naquele dia, decidiu ser nadadora. Chegou em casa e pediu que a mãe a matriculasse em um curso de natação. Hoje a alagoana de 25 anos coleciona medalhas (78 ouros, 14 pratas e 11 bronzes) e, neste ano, foi contemplada com a Bolsa Atleta Federal.

Paratleta

Erica é portadora da Síndrome de Moebius. Ela nasceu com paralisia facial e com má formação dos membros (não possui a mão esquerda e o pé direito), além de déficit de força nos membros e problemas de dicção. Por ser uma síndrome rara, a paratleta diariamente recebe olhares e, algumas vezes, perguntas constrangedoras em decorrência da surpresa das pessoas com sua aparência.

“O esporte mudou a minha vida, me fez superar os meus traumas e minhas neuroses em relação a minha síndrome e a deficiência que ela me causou. Hoje, por meio do esporte, criei asas e costumo voar pelo mundo afora”, afirma.

A alagoana participa de todas as modalidades de natação, mas se destaca no nado borboleta e no nado de costas. Representando a equipe Associação de Deficientes Físicos de Alagoas, Erica participa de competições regionais, estaduais e nacionais. Além disso, este ano participou do Open Internacional de Natação, em São Paulo, competindo ao lado de atletas do mundo todo.

Patrocínio

Para atletas de todas as modalidades, ter um patrocínio é importante. Além da necessidade de se dedicar integralmente ao esporte, os gastos com equipamentos, acompanhamento médico e viagens para competições, entre outros, fazem com que o apoio financeiro (ou a falta dele) afete diretamente os resultados do atleta.

Em função disso, a Adefal, instituição da qual Erica faz parte, está em constante campanha para conquista de novos patrocínios. Em 2013, durante uma dessas companhas, a atleta enviou um texto ao ator Fábio Porchat para falar sobre sua deficiência e pedir auxílio na divulgação das necessidades dos paratletas e nos desafios que enfrentam diariamente. Além de compartilhar o texto na sua página oficial no Facebook (veja aqui), o ator também passou a patrocinar algumas das viagens da atleta.

“Ele se tornou o meu padrinho e me dá um suporte fantástico e impagável pra que eu possa seguir com a minha vida de atleta. O Fábio é um ser humano deveras humano, engajado em programas sociais e com um olhar clínico pra pessoas que ele julga serem talentosas e dignas de um empurrãozinho pra que possam concretizar os seus sonhos. Ele viu algo a mais em mim e facilita os meus sonhos de uma maneira que ouro nenhum do mundo poderá pagar”, garante a alagoana.

Além disso, por encerrar 2014 em 3º lugar no ranking nacional na prova dos 100m borboleta, Erica foi contemplada com a Bolsa Atleta Federal, o que a tem auxiliado a se preparar e participar de competições em todo o país.

Universitária

Em função de sua síndrome, quando terminou o Ensino Médio, a nadadora demorou a entrar na faculdade por receio da recepção que teria no novo ambiente e da timidez em falar em público devido a sua ‘fala enrolada’, como ela mesma diz. Em 2013, por meio do ENEM, Erica conquistou uma vaga no curso de Biblioteconomia da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Hoje se divide entre aulas e competições, além de encontrar tempo para escrever textos para seu blog pessoal, no qual escreve desde 2008.

Por vezes, dizem que Erica é um exemplo de superação, mas, apesar disso alegrá-la, não é o que a motiva. “Tenho uma coisa bem clara na minha mente: não vivo pra ser exemplo, pra receber elogios ou aplausos ou pra ser chamada de exemplo de vida/superação. Vivo, com garra, força e coragem, porque amo viver e driblar os empecilhos da estrada da vida, de derrubar as barreiras e de galgar degraus mais altos. É uma questão de amar a minha vida”, conclui.


Brasil

A delegação de paratletas brasileiros de 2015 entrou para a história: conquistou 257 medalhas no Parapan Americano em Toronto, sendo 109 de ouro (mais que Canadá e Estados Unidos juntos). Dentre as 17 modalidades, a que mais rendeu medalhas ao Brasil foram a natação (104 no total, sendo 38 ouros) e o atletismo (80, sendo 34 ouros).

As Paralímpiadas 2016 ocorrem no Rio de Janeiro. Em Caxias do Sul, a instituição de paradesportos é o Centro Integrado de Pessoas com Deficiência (CIDEF). Recentemente, o caxiense Tiago Frank foi anunciado como técnico da seleção de basquete em cadeira de rodas (Saiba mais aqui).

Ana Seerig
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