Músicos, fãs e produtores analisam a situação do cenário musical independente caxiense, que mesmo com algumas dificuldades vem se mostrando promissor graças ao empenho dos apaixonados por música    

     Caxias do Sul é uma terra de diversidades. Se vê por aqui pessoas das mais diferentes culturas, gostos e interesses. Esta diversidade também se aplica à música. Bandas dos mais variados estilos tentam conquistar seu espaço em meio ao exigente público caxiense. Mas o caminho a trilhar não é nada fácil e exige muita dedicação e coragem por parte dos músicos, que enfrentam diversas dificuldades em busca de uma carreira de sucesso, mesmo que a nível regional. Mesmo assim, muitos músicos almejam este sonho para aliar o prazer de tocar com o retorno financeiro e o reconhecimento do público.

     É o caso de Alexandre Tatto. O jovem músico caxiense, de 26 anos, é um dos que batalham na cena independente da cidade para alcançar seus objetivos. Alexandre toca em nada menos que quatro bandas. Uma delas é uma banda cover (Piece of the Dark, que toca covers de Iron Maiden) e, enquanto as outras três são bandas com músicas autorais (Anomalia Social, Os Bombarderos Suicidas e Open).

     Apesar de dedicar boa parte de seu tempo à música, Tatto faz duras críticas às dificuldades que bandas novas enfrentam na cidade. Segundo ele, faltam lugares adequados para as bandas apresentarem seu trabalho e os poucos bares que dão este espaço acabam fazendo uma “panela” e colocando sempre as mesmas bandas tocarem. “Se você estiver interessado em fazer música própria, é muito complicado. Primeiro porque os donos dos bares só colocam seus ‘conhecidos’ para tocar, não dando espaço para bandas novas. E quando isto acontece, mesmo com uma forte divulgação do evento, dificilmente as pessoas vão se interessar em sair de casa e ir à um bar para ouvir uma banda que eles nunca ouviram falar antes”, relata o baixista. “É por isso que toco em quatro bandas diferentes, pois só assim tenho visibilidade e chance de tocar mais seguido nos lugares.”

     Outra queixa de Tatto é o fato de os próprio donos dos bares donos não darem espaço para bandas autorais por preferirem colocar bandas covers para tocar, que são garantia de maior público e mais lucro para eles. “Muitos músicos bons deixam de tocar e apresentar seu trabalho em bares como Aristos, Boteco 13 e La Barra, pois os donos dos bares preferem colocar bandas que cobram menos e tocam covers batidos que todo mundo conhece e canta junto”, critica o baixista. “Apesar de me divertir tocando músicas covers, noto que o público nestes shows é muito maior do que os shows que faço com minhas bandas autorais, que consiste mais em amigos da banda e conhecidos”.

     Apesar de tocar em quatro bandas, Tatto não vive exclusivamente de música. Trabalha numa empresa de soldas na qual seu pai é proprietário, e considera sua vida musical como “um hobby sério”. Para ele, até é possível viver de música em Caxias, porém com limitações. “Espere trabalhar muito e ganhar pouco. Até gostaria de viver só com o que ganho com as minhas bandas, mas não me importo muito com este lado. O sucesso e o dinheiro são consequências disso tudo. Mesmo se eu não ganhasse um real com elas, continuaria tocando, pois toco por prazer acima de tudo”, relata.

OBS
Os Bombarderos Suicidas tocando em Flores da Cunha (Foto: Divulgação Facebook Os Bombarderos Suicidas)

     Outro que compartilha das mesmas ideias é o músico Cléber Olivera. Ao contrário de Tatto, ele vive exclusivamente de seu trabalho como músico. Assim como Alexandre, ele toca em diversas bandas, mais precisamente três (Natural Dread, Reverendo Zumbi, Jorgetown, além de outros projetos paralelos), todas com trabalho autoral. “Ainda há poucos locais para quem quer apresentar um som diferente, como o Marechal Rock Bar. A cena independente ainda está caminhando aos poucos, porém mais por iniciativa das próprias bandas e músicos do que por locais oferecerem um espaço para nós tocarmos.” Cléber conta que uma das principais dificuldades das bandas independentes é a falta de recursos. Para ele, há muita vontade das bandas mas pouco dinheiro para executar as ideias. “A gente corre atrás, mas a parte da grana é bem complicada. Mesmo quando aparece um lugar legal pra tocar, o próprio público não valoriza, não quer pagar dez reais pra ver uma banda desconhecida”, relata Cléber

Classe musical sofre desvalorização

     Multi-instrumentalista, ele acha que esta falta de valorização da classe musical se deve ao fato de que a maioria das pessoas não vê a música como uma profissão propriamente dita, e sim como um hobby.

Ninguém se dá conta que temos diversos gastos, como ensaio, instrumentos, equipamentos, etc. Vivemos numa cultura em que a arte não é apreciada, as pessoas acham o fim do mundo pagar quarenta reais pra ver uma peça de teatro, por exemplo, mas acham extremamente normal pagar o mesmo valor ou até mais pra entrar numa casa noturna de sucesso, como a Bulls, conta Cléber.

     Assim como Tatto, ele também critica o fato das mesmas bandas terem preferência tanto em bares como em eventos patrocinados pela Prefeitura de Caxias. “Para conseguir tocar nos eventos da Prefeitura, a banda precisa de um contato com alguém relacionado à organização desse evento. Digamos que em Caxias existam sessenta bandas por exemplo. Só tocam as mesmas dez sempre. Não entendo o porquê dessa falta de oportunidade às outras,” aponta ele.

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O multi-instrumentalista Cléber Olivera é baterista da Reverendo Zumbi, entre outros projetos (Foto: Divulgação Facebook Reverendo Zumbi)

      Se engana, porém, quem pensa que os músicos são os únicos afetados por esta falta de espaço e pela pouca oferta de algo “diferente” na cidade. Guilherme Torres, estudante de Publicidade e Propaganda da UCS, conta como é difícil achar uma boa opção de entretenimento musical. “Em Caxias, as pessoas dão muito valor para festas em casas noturnas como Bulls, La Barra, Pepsi Club, etc. Quem não se identifica com este tipo de festa, acaba ficando com poucas opções”, conta Guilherme. “E nas poucas casas que oferecem bandas de verdade ao invés de um ‘DJ’, que nada mais é que uma pessoa que dá ‘play’ num computador e se considera músico, a variedade de bandas é muito pequena, são sempre as mesmas, nem dá vontade de sair”, relata o estudante.

Produtora caxiense investe em bandas locais

      Apesar de tamanhas dificuldades enfrentadas por bandas e público, nem tudo está perdido. Lucas Trindade, produtor cultural da Demo Tape 2.7 Produções, é um dos que está fazendo o possível para mudar o quadro da cena independente caxiense. “A cena musical de Caxias é muito produtiva. Existem bandas aqui que não deixam em nada a desejar se formos comparar com bandas em nível nacional”, destaca Lucas. “A diferença é o patamar de visualização das bandas, pois o espaço pra elas é muito restrito”. Notando um possível nicho de mercado a ser explorado, Lucas decidiu criar a produtora Demo Tape em 2011. “Eu não sou músico, nunca toquei um instrumento na vida, mas sempre fui apaixonado por música. Quando me dei conta que faltava espaço pro rock em Caxias, resolvi tomar uma atitude”, conta Lucas. Passados quatro anos de sua fundação, a Demo Tape se destaca como uma grande apoiadora de bandas locais. Além de realizar o festival Coverland no Aristos, dedicado exclusivamente à bandas covers, realiza diversas festas temáticas no próprio Aristos, dando espaço para diversas bandas autorais apresentarem seu trabalho ao público caxiense.

      “Infelizmente, o público de Caxias ainda não está totalmente preparado pra aceitar bandas autorais, por isso fazemos o festival Coverland. Porém, lentamente, a coisa parece que está mudando um pouco”, conta o produtor. “Pega a banda Slow Bricker, por exemplo. Tu pode ouvir na rádio e pensar: ‘Bah, que som legal’ e nem imaginar que os caras podem ser teus vizinhos.”

      Para Trindade, o público precisa entender que música feita em Caxias também é música. Ele também comenta que esta falta de percepção da maioria as pessoas se deve ao fato delas serem alienadas pela TV e pelo rádio, achando que só o que toca lá é “bom”.

     A cena independente de Caxias do Sul se mostra um tanto quanto “iniciante”, com boas bandas tendo seu espaço limitado a poucas casas noturnas e pouca oportunidade por parte destas mesmas casas. Mesmo assim, apaixonados pela música não deixam o sonho e o amor por ela morrerem, se virando da maneira que podem e fazendo as coisas acontecerem por conta própria, mesmo com tantas dificuldades. Se depender destes entusiastas, a tendência é que a cena se torna cada vez maior e mais produtiva, dando espaço a todos, e não só “aos mesmos de sempre”. Para conferir a agenda completa de shows, acesse o Facebook das bandas!

Reportagem: Bruno Bareta

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